domingo, 1 de julho de 2018

TEXTO CONVIDADO: MARA NARCISO

TEXTO CONVIDADO: MARA NARCISO

Está tudo censurado
 Mara Narciso

Cinco colegas no colégio, com treze anos de idade, saíram do centro da cidade, onde os cinemas passavam filmes proibidos para menores de 18 anos e foram ao matiné no bairro. Decidiram arriscar e ver a fita censura 14 anos. Todas passaram pelo “olhômetro”, um avaliador de idade do porteiro, mas a mais velha delas, a um mês de completar os anos exigidos pelo cartaz, foi barrada no baile. Felizmente, em solidariedade a ela, as amigas desistiram, foram tomar sorvete e depois voltaram para casa.
 
Quem vê como positivas as características autoritárias da Ditadura Militar, que duraram 21 anos – 1964 a 1985 -, e pensa que naquele governo não houve corrupção, precisa se lembrar que a censura vetava vir a público fatos desfavoráveis. A maquiagem ou a mentira completa fazia o feio parecer bonito. O lápis vermelho e a tesoura dos censores amputavam obras de arte, cortavam letras de músicas, falas inteiras em peças de teatro e filmes, capítulos de novela ou uma novela inteira (Roque Santeiro, de Dias Gomes, já com vários capítulos gravados, foi engavetada pela censura, retornando em 1985), jornais e revistas eram caçados nas bancas. Cortes obrigavam jornais a preencher o vazio com receitas. Uma edição da revista Realidade, que trazia fotos médicas de um parto foi recolhida. Alguns exemplares foram comercializados e viraram peças valiosas. As matérias da revista Playboy americana eram publicadas na revista Homem. As fotos de mulheres nuas não tinham tarjas pretas, mas vinham borradas nos seios e na genitália. O regime proibia uma pessoa adulta de ver um corpo nu. Isso em nome da moral e dos bons costumes. Torturar e matar brasileiros não eram considerados imorais. Diante da ocultação de cadáveres, esconder documentos comprometedores foi rotina.
 
Cada um tem a sua censura pessoal. Até para se lembrar de sonhos há um bloqueio interno. A pessoa sonha e veta algum fato que não aprovaria acordado. Simplesmente não se lembra. Caso cada um se lembrasse de todos os seus sonhos, pensaria bem de si mesmo? Os maus pensamentos são proibidos pelas religiões, e elas, mais do que as normas sociais e legais seguram o pensar e as vontades. Muitos rejeitam as próprias escolhas levados pelos preceitos religiosos, que castram, podam, cerceiam, direcionam, teoricamente em nome de Deus e do bem. Nisso a exclusão das outras religiões é emblemática. Quem reza por outra cartilha é do mal, apenas o credo pessoal é do bem. E por religião se mata e se morre há milênios. Sem contar os incrédulos e os céticos. Estes jamais serão perdoados.
 
Todos podem externar sua opinião nas redes sociais. A permissão existe em tese, porque os censores não titulados não permitem essa liberdade. Caso o incauto decida pensar diferente do senso comum, será trucidado pelos carabineiros diante do paredão. Há os que gostam de ser diferentes, e andam na contracorrente, sabendo e arcando com os riscos. Para isso se armam de bons argumentos e grandes certezas. Mesmo assim perdem algumas penas durante as refregas. Também existem os que se juntam no contra-ataque para derrubar o oponente. Sem contar os permanentes anarquistas, que mantém o surrado “se há governo, sou contra”. À primeira vista os justiceiros parecem seguir a lei e a ordem, mas, na verdade são seletivos contra apenas um lado e não consideram as pregações de quem pensa diferente. Na fraqueza do argumento, destroem o missivista. Também há os invisíveis, que, mudos, sabem de tudo. São as sombras. Pessoalmente podem falar sobre os desgostos com a opinião contrária, coisa que os martiriza.
 
Assim como um jogo é apenas um jogo, mesmo quando um resultado desfavorável faça sangrar, uma opinião é apenas uma opinião, que não muda a sua vida. Ainda que algumas opiniões atuem como censura, querendo amputar suas ideias e ideais, ignore. Continue fazendo seu discurso para os que pensam semelhantes a você. Mudar o pensamento de alguém não deve ser prioridade, afinal, na maior parte das vezes será perda de energia. Livre pensar é só pensar.
 
1º de julho de 2018

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