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segunda-feira, 5 de abril de 2021

TEXTO CONVIDADO: MARA NARCISO

 

TEXTO CONVIDADO: MARA NARCISO

Saudosismo nostálgico

Mara Narciso

Quando nasce uma criança, nasce com ela a saudade, ainda que não se lembre do aconchego uterino antes de vir à luz, como também não haverá consciência do seu fim. Não é raro o infante, ainda em tenra idade, ao referir-se a si mesmo, exprimir-se assim: “isso foi quando eu era pequeno...”, parecendo que o sentimento de saudade eclode ao nascimento.

O mais comum é ter saudade da infância, tida como o melhor período da vida. A sensação da bondade dos verdes anos vem da impossibilidade de comparações e ao fato de os cinco sentidos estarem à flor da pele, ouvidos, nariz, olhos e boca, daí serem tão gostosas as lembranças dos sabores e odores, em especial de passeios à fazenda, ou à casa da avó, ou de certas comidas feitas pela mãe, reverenciadas como iguarias.

Não se sente saudade de vivências ruins, no entanto, não há um muro nítido separando os departamentos da vida. Por exemplo, um tempo de luta, uma subida íngreme, sobre a qual se tenta ir para o alto. Nela, os passos são lentos, mas se lembrar da força que impulsionava essa caminhada e a conquista desses avanços despertará saudade.

Companheiros amealhados nos primeiros anos escolares despertam as amizades mais sinceras e as mais lembradas. Vem tanta força desses amigos, que, quase todos, na maturidade, tiveram vontade de reviver os afetos fraternos iniciados na juventude, mas que a vida separou. Os grupos de WhatsApp de diversas tendências comprovam isso, ainda que a polarização política tenha esvaziado parte dessas comunidades. Os mais sensíveis não suportaram os embates desrespeitosos e saíram, mas as confrarias sobrevivem.

À medida que os anos passam, o saudosismo nostálgico aflora, cresce e domina a cena. Mesmo adiante na vida, é bom conselho buscar o futuro, idealizar e fazer algo novo, enxergar adiante, seja no outono ou até mesmo no ocaso da vida. Projetos exequíveis devem ser planejados em médio prazo, e assim como há vida depois do câncer e planos para depois da aposentadoria, também haverá vida após a pandemia.

Há no Facebook o grupo “Tripulantes da Máquina do Tempo”, com incessantes postagens e centenas de comentários sobre pessoas de perto e de longe, objetos, hábitos, moda, músicas e listas gerais como bares ou cantores de certa época. Nesse grupo, em geral, as pessoas falam de vivências coletivas e poucas experiências pessoais das décadas de 1960 e 1970. Postam fotos antigas, falam de saudades e pessoas falecidas há muito tempo. Como tudo na internet, logo há uma divisão, dispondo-se de lados opostos os que gostam e os que desgostam, ainda que não haja o “dislike” como opção de manifestação de rejeição, antipatia e desgosto. Isso aborrece a alguns, porque qualquer assunto, mesmo aquele que sugira tendência à unanimidade, gera calorosos debates e algumas falas grosseiras.

Os “Tripulantes da Máquina do Tempo” despertam atenção e participação até mesmo de pessoas jovens, com saudades de 1990/2000. Pelo visto, a máxima “Saudade não tem idade” é arrematada verdade, num tempo em que há muitas verdades, numa lista tão grande que propicia cada um escolher a sua, acreditando ser a única.

E por falar em saudade, a escritora, poeta e professora Karla Celene Campos explicou esse sentimento da seguinte maneira: “Saudade! Saudade de tudo que o coração captura/ no entanto não permanece, desfaz-se no ar/ Saudade é dor de desejo/ do que não se deixou ficar//”.

 

segunda-feira, 22 de março de 2021

INTEGRAR e REINTEGRAR- MARA NARCISO

 

TEXTO CONVIDADO: MARA NARCISO

Integrar e reintegrar 

Mara Narciso

No tempo da Ditadura Militar, que vigorou no país durante 21 anos havia por força de decretos exagerados nacionalismo e ufanismo, caracterizados do ponto de vista de propaganda governista pelo slogan “Integrar, para não entregar”. Naquela época começaram a Transamazônica para impedir a invasão estrangeira da Floresta Amazônica Brasileira. As ações governamentais estimulavam o amor à Pátria, o canto do Hino Nacional, a existência de um Pendão Nacional nas salas de aula e repressão aos costumes, instalando-se um ultraconservadorismo. O clímax do orgulho nacional foi o tricampeonato de futebol em 1970 em Guadalajara, no México, e, à época, ouviam-se músicas que diziam “ninguém segura a juventude do Brasil”.

 Muitos casamentos de fachada estão falidos há anos, e um dia, um dos lados, geralmente a mulher, quer documentar o fim do matrimônio, quando os dois dormem em quartos separados e mal suportam se ver pelos cômodos da moradia. Mesmo que o solicitante tenha certeza da irreversibilidade da decisão, há uma Audiência de Conciliação, na qual o impossível pode acontecer. O lado fraco, inseguro e dependente, implora pela volta e logra “êxito”, retornando à estaca zero do divórcio, exceto pela manutenção dos sentimentos negativos tais como mágoas, recalques, sede de vingança e ódio. Por absurdo que possa parecer, alguns, para se reintegrarem à condição de casados, voltam a dormir na mesma cama, na tentativa de segurar o vento com a mão. 

Quando há uma invasão de imóvel, que, em princípio teria um proprietário e se resolve ficar lá dentro por anos, a justiça, a quem fez o pedido, e após prova de posse, poderá dar uma liminar para a Ação de Reintegração de Posse executada contra o pretenso novo dono, de acordo com os requisitos legais para a sua concessão. Ausentes tais requisitos, indefere-se o pleito possessório, dando-se posse ao novo dono. Esse tipo de decisão gera extremadas divergências de opiniões.

Os Protocolos Sanitários em relação à covid são claros quanto ao afastamento social, isolamento e confinamento, como única arma eficaz contra a contaminação e o adoecimento, até que haja vacina para a população geral. Todos os líderes mundiais recomendam o seguimento desta cartilha, exceto o presidente do Brasil. A Organização Mundial de Saúde dá suas diretrizes, desde 31 de dezembro de 2019, quando informou ao mundo o surgimento de uma estranha pneumonia na cidade de Wuhan. O cerco foi sendo apertado, com o primeiro caso brasileiro acontecendo em 26 de fevereiro de 2020. Depois chegaram a todas as cidades, tirando o ar da população pela sufocação dada pela doença, afetando todas as famílias, ou quase todas pelo medo. A lista de novos doentes acrescenta 450 casos por dia em Montes Claros, somando 23.287 diagnósticos confirmados. Muitos vencem a doença, outros são vencidos por ela. Tivemos 422 óbitos até o dia 19 de março de 2021.

Para que toda a família não adoeça, é preciso ter consciência da imperiosidade do isolamento domiciliar radical, com o enfermo dentro do quarto, recebendo o alimento na porta, com todos os neurotizantes rituais. Os cuidados com a lavagem de roupas, dos utensílios e sua desinfecção, a observância de não tocar e não trocar a sequência ao desinfetar objetos evita que mais pessoas caiam de cama, e até necessitem de hospitalização. Ainda que alguns técnicos achem improvável uma contaminação não inalatória, é melhor evitar todos os contatos, borrifando tudo com álcool 70º durante todo o processo, antes, durante e depois, além do distanciamento e uso de máscara pelos demais, ao circular pela casa. O cuidado com o lixo deve ser extremo, colocando-se um saco dentro de outro saco e borrifando com água sanitária diluída três para um, o tempo todo, amarrando bem a boca de ambos. Todo aparente exagero acabará por proteger alguém. O importante é interromper a cadeia de disseminação e contaminação.

Quando houver 14 dias desde o começo dos sintomas (algumas fontes dizem 7 a 10 dias), e se o doente for vitorioso contra o SARS Cov 2, poderá ser reintegrado à vida familiar. Tal reintegração, na ausência de testagem, poderá continuar observando o distanciamento e uso de máscara pelos mais vulneráveis, até não haver nenhum sintoma, fato questionável, porque a tosse pode persistir por meses. Alguns funcionários, antes de voltar ao trabalho passam por testagem de RT PCR em busca de material genético do coronavírus em suas gargantas. Fragmentos de vírus não viáveis podem ser detectados até três semanas após sumirem os sintomas. O preconceito contra os que se curaram tende a se reduzir, já que alguns querem culpar os doentes. Que todos possam ser vacinados!

domingo, 18 de janeiro de 2015

TEXTO CONVIDADO II: MARA NARCISO

TEXTO CONVIDADO II: MARA NARCISO

 Nas ondas alemãs

Mara Narciso

            Inova, inventa, captura, seduz, envolve e leva o leitor pelos meandros do raciocínio de um gênio. Privilégio tem quem entra em seus pensamentos e o acompanha em sua aventura em busca do “Irmão Alemão”, perdido noutro país e noutras épocas. Munido de uma foto e de uma carta, Francisco caminha pelas suas suposições, deduções e ilusões, atrás de algo vago, porém estimulante para si e para quem o lê. Escrito na primeira pessoa, os nomes são levemente mudados, e a verdade salpicada de fantasias. Assim, Chico Buarque de Holanda nos leva por um mundo que não é de todo real, mas também não é fictício.
            Na condição de consumidora do que Chico Buarque faz, e faz tão bem, embarco na onda alemã e vou com ele em busca do seu irmão, que, sendo vivo já passou dos 80 anos. E pode-se imaginar o que teria sido se tivesse vivido no Brasil. Desfilam entre livros clássicos e seus personagens, pessoas remanescentes dos hippies, escritores e compositores famosos, mães em busca de filhos desaparecidos, transgressões adolescentes, sexo, música, teatro, bares, cigarros de tabaco e de maconha, LSD, perdas e conquistas. O ritmo é rápido e, à moda de José Saramago, não são gastos parágrafos para se escrever os diálogos, marcados em texto corrido.
            O personagem principal, contrariando o nome do livro, não é o irmão, e sim a biblioteca gigante do pai, onipresente. Garante o autor que a estrutura da casa são os livros, empilhados do chão ao teto, que seguram a casa, sejam dentro de estantes, em cima de móveis, ou em caixas no chão. São como o ar para seu pai, um tabagista arquejante, amigo de grandes escritores e mimado pelos editores, que lhe mandam novas remessas de obras todos os dias. Sem falar com ele e dando atenção e dinheiro apenas ao irmão Domingos, que odeia livros, Sérgio de Hollander, o pai, não o enxerga. A mãe italiana, Assunta, mistura-se aos livros e à comida do marido, sendo uma mulher que não existe, a não ser escorada por essas duas providências que a levam vida afora.
            Udo, o vizinho, buzina dentro de um Karmann Ghia novinho, exceto pelo vidro do carona arrebentado por um paralelepípedo. Uma alusão à primeira vez em que Chico Buarque aparece no jornal, não na página literária, mas na página policial, por ter furtado um carro. Seu irmão Domingos tem o vício de atrair para a cama moças virgens que, depois de defloradas são descartadas. Assim como o pai lê e escreve nas margens dos livros que sobram para Francisco ler em segredo, também as mulheres que foram do seu irmão são o que lhe resta. Até Maria Helena, que foi uma descoberta sua, fica com o irmão antes de estar com ele.
Sente-se feio, compara-se ao irmão, e usa roupas dele. Louco por livros, carrega sempre algum. Formado em Letras, é professor de Francês, e vive com pouco dinheiro. Idealiza com prazer escrever um romance que será lido pelo seu pai. Em busca de informações sobre o irmão alemão Sérgio Ernest, aproxima-se de uma família alemã de professores de piano e encontra um caminho, finalmente. Adiante, Udo, o tal vizinho, some de repente, levando consigo o seu irmão, então tido como subversivo. O autor vê uma abordagem policial de alguém que nunca mais volta. Assim, vai contando a sua busca, enquanto alfineta a História.
Usa de humor, apimenta a narrativa, fala um ou outro palavrão, enquanto diverte seu leitor. Não se separa o que é real do que é ficção. Em nome da clareza, inventa passagens fantasiosas, que lhe servem de ligação. Disse que seu pai, ainda que aprendesse todas as línguas e lesse todos os livros do mundo, ainda assim não estaria satisfeito. Desta forma, palavras de diversos idiomas visitam a narrativa, como ilustração e não como esnobismo.
A Alemanha da década de 1930 desfila diante do leitor, com suas ruas, edificações, costumes e alusão à II Guerra Mundial, inclusive, em nome da dignidade, com cenas dentro de um campo de concentração.
Para provar o que diz, o autor apresenta documentos da época, ocasião em que Anne Ernest tem um relacionamento com Sérgio de Hollander e geram o filho Sérgio Ernest, mas a mãe não tem como sustentá-lo. A criança será adotada por um casal alemão, porém é preciso comprovar, em tempos de purificação da raça, que a criança é ariana pura, de ambos os lados. Mas isso se torna impossível, considerando-se necessárias as certidões de nascimento do pai, dos avós e bisavós. Tal não é feito, e os contatos se perdem. As páginas já estão acabando e o leitor se pergunta se dará tempo. E assim, mantém-se o suspense.
Compositor impar, com suas músicas políticas, líricas e feministas, suas peças de teatro engajadas, suas marcantes trilhas sonoras para cinema e televisão, seus livros “Estorvo” e “Benjamim”, que viraram filmes, “Budapeste”, em que detalha uma cidade na qual não tinha estado, “Leite Derramado”, em que embarca no esquecimento do Mal de Alzheimer, pode-se não gostar da ideologia socialista de Chico Buarque de Holanda, de 70 anos, porém não há como ficar indiferente ao que faz. E que venham mais irmãos. E de qualquer nacionalidade.

domingo, 9 de novembro de 2014

TEXTO CONVIDADO: MARA NARCISO

TEXTO CONVIDADO: MARA NARCISO


A Mara Narciso, no domingo passado, escreveu um texto inquietante. Imediatamente telefonei à minha amiga e afilhada (na Academia Feminina de Letras, todas nós temos um padrinho ou madrinha e a Mara me escolheu para madrinha quando do seu ingresso, o que foi pra mim uma alegria imensa, afinal, ela é alguém  que gosto e  admiro, como profissional e como pessoa, embora, às vezes, discorde do seu ponto de vista), para saber se estava bem e para comentar o texto. Profundo e muito real, traduz questões que me deixam reflexiva e descontente com o mundo em que vivemos. Trata da intolerância humana, da inversão de valores, mas, sobretudo, do egoísmo reinante e da pouca importância que se dá aquilo que está além do próprio umbigo. É um texto que todos deveriam ler. A decisão de colocá-lo no blog neste domingo não é à toa. Esperei uma semana, para que, depois de publicado em outros espaços, todos pudessem digerir, pensar. Agora, eis o texto. Quem leu anteriormente, relendo, poderá se defrontar com novas reflexões, quem  não, recomendo, pois é pra fazer pensar, e pensar. 

Viagem ao fundo do ego


Mara Narciso

            Na minha visão de mundo, nada poderá ser mais importante do que a satisfação imediata dos meus desejos. A minha saciedade plena em todos os sentidos é a razão de ser do meu universo pessoal. Os meus pensamentos não serão conhecidos, mas serão adivinhados. E que não precise acontecer um olhar, ou um leve oscilar de dedos, ainda que a minha mão permaneça suave sobre a mesa. Não suportarei, por menor que seja, nenhuma contrariedade. Eu não tenho sonhos, eu não tenho aspirações, eu tenho prazeres sanados de forma antecipada. Para mim não existem os outros, a menos que possam prover a minha sanha de satisfação. Não existe dentro de mim nenhuma paciência ou compreensão. Falhas serão cobradas com açoites, e caso se repitam, um tiro na nuca, ainda que figurado,  ocorrerá para a família pagar o projétil.
Após uma mínima falha, caso venha de joelhos beijar a minha mão, e lamber meus pés, não lhe lançarei nem mesmo um olhar. Não gasto nada com pessoas desprezíveis. O que dizem de mim, desconheço, e acho que ruins são os demais. Não tenho sentimentos e algumas vezes nem mesmo pensamentos outros que não sejam para o meu prazer de egoísta insaciável. O que me importam os outros? São meras figurações para que eu brilhe. O centro do mundo sou eu, e que os meus serviçais resolvam qualquer imprevisto, sem que seja necessário vir ao meu conhecimento. Não gasto décimos do meu tempo nomeando problemas.
Tudo gira em torno de resoluções para a minha paz e sossego. Jamais perco a compostura, ou me movo. Respiro de forma tão sutil que nem mesmo embaço um espelho, caso coloquem algum deles perto da minha boca suave. Não existe suor, não exalo nenhum odor. Meu alimento é o néctar, e as excreções somem no ar como fluidos incorpóreos invisíveis.
            Tédio, monotonia, existência vazia, nada para pensar amanhã? Debocho de tudo isso. São coisas humanas. Estou acima dos reles mortais. Tripudio sobre todos e qualquer um de vocês. Quem sou? Não gasto explicações com isso. Por exceção, hoje estou a diluir pelo ar, de forma magnânima, algo que possam compreender. Estou numa dimensão muito além do que a mente humana possa idealizar. Pessoas que se mostram indiferentes, me perguntam se tive pai e mãe, e se mamei num seio materno. Não sei. Na construção da minha superioridade e autossuficiência, isso pouco importa.
Para ser como eu, indiferente aos sentimentos humanos e suas mediocridades, tive um início de existência que não importa quando e nem onde. Atingi esta situação de equilíbrio idealizado e jamais alcançado. Sou e isso é suficiente. Aqui no meu estado espiritual não há medo, nem dor, nem qualquer incômodo, por menor que seja. Estar assim é bom. Minha apatia com o sofrimento é tal, que nem penso nisso. Devo ser aquele alguém que os psiquiatras juristas chamam de mente psicopata.
Eu não mato o corpo, eu mato a alma, com frieza e indiferença. Eu roubo a paz. Eu trago a guerra de espírito. É a mesma coisa, quase, e fico impune. Membros esperneantes não me sensibilizam. A lei não me alcança e nada pode fazer contra mim. Nisso sou imortal e gozo de inalcançável impunidade. O meu prazer é destruir pessoas, jogá-las ao leu, triturá-las, reduzi-las a pó. E quando me perguntam se isso não é aborrecido, respondo que nessa arena, mando eu, dou todas as cartas, incluo e excluo ao meu bel prazer, e ao final, dou a minha risadinha de desdém.
Obedeçam-me. Afinal, o mundo que coordeno é todo meu. Embora me pareça com um príncipe, sou um semideus das profundezas. Talvez seja imortal. Ainda que não gostem dos meus métodos, é assim que sou. E o melhor: eu não me importo se gostam ou não de mim.


domingo, 14 de setembro de 2014

TEXTO CONVIDADO: MARA NARCISO

TEXTO CONVIDADO : MARA NARCISO

Bom senso sobra, pois quase todos acham que têm

Mara Narciso

            Já vai longe o tempo em que começaram a postar comida nas redes sociais. Se por um lado a propaganda vende a partir do momento em que estimula a inveja, a exposição do privado em espaço público tem o mesmo objetivo. Piada: o tubarão vai comer o banhista, mas, de boca aberta, interrompe o gesto, e, subitamente de câmera na mão, diz –“ Vou fotografar meu almoço para colocar no Facebook”.

            Na sociedade nem sempre fraterna da internet, vai-se seguindo o feed de notícias (página inicial), lendo, saltando, vendo vídeos que se abrem sem precisar mandar, num conteúdo que vai se modificando de um extremo a outro. Circulam bom-gosto e mau-gosto, postagens cultas, erros ortográficos, fotos variadas, crianças, viagens, aniversários. Tem piadas, foto de placas curiosas, quadros com versos de autorias questionáveis, coisas do bem e do mal (links maliciosos com possibilidade de vírus). A profusão das postagens vem tão veloz que não dá tempo de se ver.

            Curtir significa que viu, e nem sempre que leu, como também não indica que a pessoa concorde. Uma coisa leva à outra. Pode-se sair do site, ir a jornais ou portais, revistas e documentários, às vezes longos e, de tão interessantes, sugam e escravizam. É impossível não ver até o final. A mania de postar sem parar, junto à linha do tempo interminável, faz com que as pessoas mal percebam que ficam pulando daqui e dali, em leituras e visões sem fim. Quando se assustam, já se passaram horas. Caso saia do site, mas deixando a página aberta, um barulho avisa que seus contatos estão comentando postagens já comentadas por ela.

O limite de armazenamento nunca será alcançado. As postagens mais interessantes tornam-se virais e são vistas por milhares, até milhões de internautas. Há sites especializados em produzir conteúdo para as redes sociais. São charges, piadas, fotos engraçadas, vídeos e textos curtos. Como tudo é acelerado, quem posta muito pode não ser visto, nem lido.

            Fotos de pessoas degoladas surgem de repente, e às vezes nem dá tempo de desviar o olhar. Quando há um acidente, logo as imagens estarão no ar. Quando alguém se sente incomodado, agredido, desrespeitado por uma imagem ou texto, denuncia aos dirigentes e, caso seja uma agressão moderada, o autor pode ser convidado a mudar foto ou abordagem. Se a agressão for grave, especialmente para quem é reincidente, será suspenso, ficando no estaleiro por no mínimo um mês. Esta foi a maneira encontrada, no caso do Facebook, para tentar domar a incontrolável multidão de intrépidos usuários, que trocam informações, elogios e xingamentos em verdadeiras guerras textuais. A rede de contatos de cada um, que pode atingir o número de 5 mil, modula parte da confusão.

Muitas e superficiais amizades acontecem, enquanto outras se despedaçam especialmente em período eleitoral, em que, mais do que durante o Campeonato Nacional de Futebol, quando os insultos se fazem muito presentes. Há quem ache que apenas sua opinião possa existir, e, acredite, agride de forma não civilizada (estúpida mesmo), quem pensa diferente dele. Casos de injúria racial, intolerância religiosa, preconceito de classe social e de gênero, além de agressões aos velhos e gordos, acontecem naquela mini sociedade constituída. Tudo que ocorre aqui fora, tem lá dentro, como bullying, assédio moral e sexual. Conversas atravessadas podem aparecer inbox (fechadas aos outros usuários).

Quem usa a rede sabe de tudo isso, pois é fácil observar. Pode-se, a grosso modo, criar uma personalidade, e a foto do perfil ser tão boa, em relação à realidade, que na rua não se consegue identificar os contatos. Sem contar os perfis falsos, os fakes. Pessoas mal intencionadas pedem amizade para invadir, insultar, agredir. É preciso deletar e bloquear. Há os vendedores, os políticos, os religiosos e outras correntes que querem impor ideias. As propagandas são outra invasão dominante, santinhos de políticos, e ofertas de “curtidas” e “compartilhamentos” a baixo preço.

Entre as postagens esdrúxulas, soube de um filho que postou a foto do pai morto no caixão, e um monte de gente curtiu e comentou, só não sei se compartilhou. Um pai postou a foto da filha de 13 anos com os irmãos, e atrás dela alguns absorventes higiênicos, e a informação de que a menina tinha menstruado pela primeira vez.

A superexposição está na ordem do dia. Quem tem mostra e quem não tem mostra também. Conselhos? Poucos os querem. A liberdade é total, exceto pela autocensura. E cada um vai se mostrando mais e mais, falando que o outro é que deveria ter um pouco mais de discrição.

10 de setembro de 2014

quarta-feira, 9 de abril de 2014

TEXTO CONVIDADO: MARA NARCISO

TEXTO CONVIDADO: MARA NARCISO

Cem homenagens aos cem anos da Professora Yvonne Silveira

A CENTENÁRIA YVONNE SILVEIRA  e MARA NARCISO
 

            Desde o dia 30 de dezembro de 2013 foram programadas e estão acontecendo homenagens no ano do centenário de Dona Yvonne Silveira. Assim que os festejos começaram, de pé, com voz firme, ela diz não é merecedora de honrarias.            Conduzida pelo vice-presidente da Academia Montesclarense de Letras Wanderlino Arruda, a grande dama da intelectualidade montes-clarense, a eterna Presidente da Casa de Yvonne Silveira, o codinome da já citada academia, postou-se à mesa de honra, seguindo o cerimonial coordenado pela acadêmica Glorinha Mameluque. Era o dia 27 de março e a homenagem fora organizada pela Academia Feminina de Letras de Montes Claros, entidade da qual é mentora.
            Pertencente ao Conservatório de Música Lorenzo Fernandez o Coral Waldir Pereira entoou o Hino a Montes Claros cuja letra é da homenageada e a música da maestrina Clarice Sarmento. O grupo cresceu em número, reverberou nas entranhas do Elos Clube, e emocionou Dona Yvonne, que não pôde conter as lágrimas.
            Então, Ivana Ferrante Rebello, fazendo uso dos seus atributos capacidade, talento e inteligência, inventa uma fala tão magnética, que causa o efeito de plateia hipnotizada. Conta a relação professora e aluna que se dava entre ela e Dona Yvonne, que lecionava Literatura na Fafil, a Faculdade de Filosofia. Não tenho como esmiuçar a memória e trazer as palavras de Ivana, apenas o bem estar que a lembrança delas me faz. Mencionou que a mestra trazia a liberdade para suas aulas, pois abria portas, escancarava janelas, mostrava o lado lúdico da escrita bonita que se esconde nos livros. Um ensinamento feliz. E tudo em cima do salto alto, o lado feminino não esquecido por Ivana, doutora em Literatura.
            A poetisa Karla Celene Campos apresentou um conto de amor, a história de Dona Yvonne, acontecida no Brejo das Almas, hoje Francisco Sá. Era uma menina de 14 anos, filha do farmacêutico que conheceu seu pretendente, apaixonou-se, casou-se e viveram juntos 76 anos. Usou fortes imagens poéticas para enfatizar a grandeza daquele amor. Quando ficou viúva, naturalmente entristecida pela ausência do seu amado, não perdeu a doçura, emanando de si uma voz suave e um leve sorriso, com a aparência de quem acaba de sair do banho.
            A também acadêmica Mary Lelis declamou um poema de sua autoria, a pedido da homenageada. Então o Coral Waldir Pereira, regido pelo maestro William Leal, que se empolgou e até cantou, voltou à ribalta executando mais duas músicas escolhidas pela confreira Maria do Carmo Veloso, integrante do grupo. Novas e reforçadas emoções tomaram seu lugar na casa.
            No Dia Internacional da Mulher a Placa Yvonne Silveira, criada pela artista plástica Ângela Vera de Castro é oferecida a uma mulher que tenha brilhado naquele ano, e desta vez, embora redundante, tal placa foi oferecida a Dona Yvonne Silveira, que, após receber flores de Evany Calábria, presidente da Academia Feminina de Letras, agradeceu, referindo sua falta de mérito.
Respeitando seus cem anos, peço licença para discordar. O poder transformador de quem ensina é o maior de todos. O professor bem preparado, que se empenha em ensinar, amplia e multiplica tal poder que adquire efeito incontrolável. Entre os seus merecimentos está o mais prático: ela não apenas transformou, ela revolucionou boa parte dos seus alunos, incutindo-lhes o gosto pelos livros, criando neles a necessidade de saber, e com isso alterou mentes, histórias e realidades. Professor e livros: quem mais tem essa força? Diante da generosidade da professora Dona Yvonne Silveira, seus ex-alunos a agradecem por ter sido grande em suas vidas e operado maravilhas. Quem faz isso, e ainda por cima é uma das mulheres, junto a Amelina Chaves, que faz parte do hermético grupo da Academia Maçônica de Letras do Norte de Minas merece não uma festa, mas uma centena, uma para cada ano de vida, mais outra para cada ano de magistério, ocasião em que pôde fazer e fez deslumbramentos.  O seu trabalho não se vê e nem se mede, mas os efeitos observados são perenes.
29 de março de 2014

domingo, 19 de janeiro de 2014

DOIS, MUITO ESPECIAIS: TIÃO E MARA- SABOREIEM...

DOIS CONVIDADOS MAIS DO QUE ESPECIAIS:

TIÃO MARTINS E MARA NARCISO

A mentira é uma coisa que me intriga. É uma opção tão mais perigosa e escravizante para aqueles que escolhem viver debaixo das suas asas! É um faceta misteriosa do ser humano, pois ao contrário do que dizem, falar a verdade é mais saudável, não te torna refém de nada nem de ninguém, não escraviza, não coloca amarras. Chega a ser um pouco egoísta, já que ao dizer a verdade, o problema passa a ser do outro. Mas é indiscutivelmente, na minha opinião, a melhor ou única opção, além de ser justa para com o outro. E foi a partir desta inquietação, e de tanto ouvir ( e nunca entender) que "as coisas não podem ser ditas do jeito que se pensa", que propus a dois amigos muito especiais, de quem gosto particularmente como pessoas e como escritores, que desenvolvessem um texto a partir do tema: VERDADE- PORQUE GOSTAR DESTE MISTÉRIO.
E eles, legais que são comigo(e com os nossos leitores), atenderam prontamente ao meu pedido. Com isso, os leitores do blog tem a oportunidade de desfrutar de dois textos ótimos, serenos e exclusivos sobre um tema complexo e cheio de nuanças. A seguir, os textos do TIÃO MARTINS (tiaomartinsbh.com ) e da MARA NARCISO. SABOREIEM:




Verdade sem mistério

Tião Martins

                

Boa parte dos equívocos humanos vem da busca de uma verdade qualquer: uma crença, 
uma religião, um dogma, um herói.
            
Queremos verdades simples, sem mistérios e sem enganos. Qualquer coisa parecida com o paraíso,
sem a serpente e o final infeliz.

Pigmeus na busca da razão e da verdade, cometemos muitas vezes o equívoco de confundir desejo e realidade.
            
Como queremos que o mundo seja um lugar propício à vida, apagamos do quadro tudo que contradiz nosso desejo.  E abraçamos a ficção.
            
É isso que os marxistas de carteirinha chamam de alienação, embora eles próprios vivam no fundo de um poço, com os olhos voltados para o passado.

A verdade, por mais que isso machuque o nosso ego, é algo que teremos que buscar longe dos desejos e crenças infanto-juvenis.

Longe dos manuais, das velhas crenças, das histórias que ouvimos dos avós.

Longe das ideologias simplificadoras e das palavras de ordem dos partidos políticos.

Longe de nós, enfim.

É por isso que tão poucos insistem em buscá-la. E um número ainda menor chega a se aproximar dela.

Não se chega à verdade sem demolir os mistérios falsos ou verdadeiros que encontramos no caminho. 

E nessa jornada haverá equívocos, tropeços e recuos. E aqueles que se aproximam dela – da verdade – ainda correm o maior de todos os riscos: acreditar que é a única, a última, a definitiva.

São tantos os desvios, tantas as armadilhas, que a maioria desiste da jornada e amarra o seu barquinho no primeiro cais.

Melhor seria que afundassem o barco e destruíssem o cais. Acontece que os humanos valorizam mais a segurança que a busca eterna.

E não há segurança, nem certeza, para quem busca a verdade. Só existe a busca, até o apito final.

 
Verdade: por que gostar deste mistério?

Mara Narciso

Falar da verdade, um tema complexo, precisa envolver outros anexos como injustiça e sinceridade. O que é a verdade? 

Nem Cristo animou-se a explicá-la. Portanto, é um mistério que alguns odeiam, enquanto outros amam, fazendo dela uma razão para enfrentar o mundo. Cada um teria a sua própria verdade, e esta seria imutável pela vida, ou flexível conforme a moda e as circunstâncias? Quando a verdade alheia nos é favorável, é bom ouvi-la, mas quando nos é negativa, escolhemos esquecê-la, ou alterá-la, quando possível.

Muitos preferem a amarga verdade, que a doce mentira, porém Cazuza disse: “mentiras sinceras me interessam”. A verdade necessária é bem-vinda, e de preferência, que entre de supetão. Essa de preparar o espírito para uma notícia ruim soa mal para a minha sensibilidade.

Se por um lado “onde tem fumaça tem fogo”, por outro “as aparências enganam”. Mas, para quem quer agir na base da suposição e praticar a maledicência, a verdade pouco importa. Age como autor de ficção, colocando ingredientes vis para obter maior platéia. E atinge seu intento. Raramente há quem parta em defesa do injuriado ausente.

Será que somos capazes de ouvir e praticar a verdade sincera e desinteressada? A franqueza educada é bem-vinda, mas agimos de forma imparcial? Então, entra em cena a coragem. Conseguimos opinar contra o senso-comum para sermos fieis à nossa verdade? Por medo de perdermos privilégios, podemos omitir nosso pensamento.

Mas, compensa enganarmos os demais, falando o que querem ouvir, por comodismo, sendo que desejássemos dizer outra coisa? Sou contra mentiras, e omitir pode ser questão de sobrevivência. “Viver é perigoso”, disse Guimarães Rosa, e ser verdadeiro adiciona maior risco a existência. Entre os perigos da vida, amar tem alta voltagem, porém, para o nosso pavor, atrelada ao amor pode estar de tocaia a maior dor que um ser humano pode sentir: a perda. Então, muitos preferem ocultar sentimentos.

Então, enquanto há os que não amam por medo, há os que mentem por igual motivo. Ir pela contramão do senso-comum, chega a ser estupidez em várias situações. Ainda assim, ser verdadeiro é virtude que deve ser estimulada. Dizer frases do tipo “eu minto, eu omito, eu crio histórias” deve ser figura folclórica, apenas para fazer graça. Peca-se por atos e omissões, e mata-se o amor e a amizade pelas mesmas armas. Nada é mais covarde que injuriar, caluniar e difamar. Para quem age assim, melhor ordenar ao grupo uniformizado: “pelotão, atenção, preparar, fogo!” Nem que seja de maneira metafórica. E que a verdade prevaleça.

Bem, só me resta agradecer ao desprendimento deste dois amigos queridos, que além de enriquecer o blog, trazem à baila reflexões importantes, acerca de um tema aparentemente simples, mas carregado de inquietações.
Obrigada amigos! E aos leitores, desejo que depois da leitura, se sintam enriquecidos.

domingo, 12 de janeiro de 2014

MARA NARCISO RESPONDE....

MARA NARCISO RESPONDE....

Nossa amiga MARA NARCISO, médica e jornalista, e de quem muito orgulhosamente somos madrinha na AFL, responde ao ping pong coletivo:

O segredo de tudo está em... 
fazer o bem.
 
Eu ando com vontade de.... 
sonhar.

Ótima, Mara! bacana resposta!!